segunda-feira, 29 de janeiro de 2018


Foram 17 tiros no carro e apenas alguns arranhões pelo corpo.


A administradora Monique Lorosa e a turismóloga Jade Burmeister voltavam de um bloco do bloco na Gávea, Zona Sul do Rio, quando se viram no meio da linha dos disparos entre bandidos e policiais militares. Os criminosos fugiam em três carros roubados e abriram fogo contra os agentes em uma perseguição policial que deixou um garçom morto e feriu dois PMs e uma passageira de Uber.

Ainda abalada, Monique conta que decidiu deixar a folia com a amiga por volta de 21h e, já dentro do carro, ouviu o barulho da perseguição na Rua Conde de Bonfim. Os bandidos dispararam na direção do veículo e da calçada lotada do Bar Pinto, na qual o garçom Samuel Ferreira Coelho, de 24 anos, foi atingido no peito e não resistiu. As amigas ainda ficaram cinco minutos dentro do carro, mas resolveram sair à procura de abrigo.


"Os tiros começaram do nada. Foram muitos, nunca vi coisa igual. Só no nosso carro, foram 17 tiros, alguns de fuzil. Eu não sei como a gente está viva. Ela (Jade) me disse: 'Amiga, acho que fui baleada'. Então eu abri a porta do carro e saí puxando ela. Eram os estilhaços em cima da gente. Um tiro de fuzil atravessou o vidro na altura das nossas cabeças. Caiu um policial baleado do meu lado, não consegui puxar ele", recorda Monique, de 35 anos, com a voz embargada.


O carro ficou lotado de marcas de tiros e teve vidros quebrados. Na tensão do tiroteio, a administradora lembra de ver "flashes" de armas e muitas pessoas no chão, feridas ou escondidas dos tiros. Diante de tantos disparos e a localização do carro, Monique só consegue encontrar uma justificativa para as duas saírem ilesas: estavam fantasiadas de super-heroínas.

"Não tem explicação, senão a gente não iria sobreviver. Foi o universo que conspirou para a gente estar viva. Ela estava de Mulher Maravilha e eu de Supergirl. Todos estão comentando que fomos salvas pela fantasia! Uma brincadeira carinhosa" destacou a tijucana, que ficou com arranhões pelo corpo, causados pelos estilhaços.


Ao saírem do carro, Monique e Jade, de 33 anos, foram socorridas por uma moradora. Mesmo sem nunca tê-las visto, a senhora levou as duas para a sua casa. Acalmou e cuidou delas até a chegada dos amigos, que ficaram responsáveis por falar com a polícia, ajudar na contagem de tiros. Elas estavam no bloco com cerca de dez pessoas, mas haviam resolvido ir embora sozinhas mais cedo que o resto dos colegas.

Monique, que também mora na Rua Conde de Bonfim, relata nunca ter visto tamanha violência na rua da Tijuca. Mas "todo dia ouve falar" de assaltos e situações perigosas na região.

"Eu tenho medo. Infelizmente, eu tenho medo. Mas eu tenho medo de todos os lugares. Em outra rua da Tijuca, um motociclista me disse que ia estourar as minhas costas no ano passado. Eu reagi ao assalto, corri muito, a moto dele caiu, e os vizinhos me puxaram para dentro. A gente não tem mais segurança no bairro. Neste sábado, os indivíduos estavam armados até os dentes, todos com armas enormes, não tinha para onde correr" lembrou.


Na ocasião o garçom Samuel, que cobria a folga de uma amigo de trabalho, foi baleado no peito com um tiro de fuzil. A mãe dele Raimunda Maria da Conceição chegou ao local logo que soube o que tinha acontecido. Desolada, ela contou que temia pela segurança do filho no trabalho noturno, dada a violência na região.

"Eu pedi para ele não aceitar essa vaga porque estava com medo dele trabalhar à noite. Tenho mais um filho, mas lá em casa éramos só nós dois. Mesmo que a gente fique preocupada, nunca imaginaria que meu filho seria mais uma vítima da violência retratada nas páginas dos jornais" declarou a mãe.


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